Qual a relação entre Inteligência Artificial e Análise de Dados?

Qual a relação entre Inteligência Artificial e Análise de Dados?

O termo inteligência artificial nunca esteve tão em alta. Se ouve falar em todo lugar. A mídia adorou esse termo e o aplica sempre que pode em suas notícias. É um termo que chama a atenção das pessoas.

Muitos de nós criamos diversos cenários mentais nessa temática, muitas vezes influenciados pela parcela de filmes como na saga Exterminador do Futuro, Blade Runner ou Ex-Machina. Em ambos os casos, o plot sugere sempre a mesma precaução: cuidado com IA que, mais tempo ou menos tempo, ela vai te pegar. Possivelmente irá atrás de você com shotguns.

Mas será que esses filmes fazem jus ao entendimento moderno do que é inteligência artificial? Não. Não fazem.

O ‘Boom’ da Inteligência Artificial

Praticamente toda nova tecnologia moderna dita embarcada com inteligência artificial é proveniente dos recentes avanços na área da coleta, análise e tomada de decisão baseada em dados. Isso mesmo, dados. Boring né? Tabelas cheias de números estão revolucionando a nossa vida atual. E só fazemos isso agora por que temos equipamentos para isso.

Armazenar dados ficou barato, processar esses dados também já não é tão caro. Com todos esses dados em mãos, a área que os analisa se desenvolveu também com velocidade proporcional. E o resultado são modelos/algoritmos capazes de realizar tarefas com performance sobre-humana nas mais diversas tarefas.

Não passa muito tempo sem sair alguma notícia em que alguma IA supera os melhores humanos de uma dada área. Muitos médicos estão ficando para trás na análise de imagens de exames. Advogados não conseguem competir contra IAs que conhecem todos os casos catalogados sobre certo assunto. Nos games, já existem algoritmos capazes de alcançar níveis inalcançáveis para gente de carne e osso.

Há algum tempo, mais de 95% dos jogos de Atari foram batidos em nível sobre humano utilizando algoritmos de reinforcement learning. Um profissional absoluto do jogo Go, jogo este praticamente impossível de ser batido por força bruta, também foi superado por um algoritmo. O documentário da Netflix chamado AlphaGo conta essa história de maneira muito interessante.

Como a Inteligência Artificial vai mudar as nossas vidas?

Carros autônomos, isto é, carros que nos levam de ponto inicial até um destino final sem depender de interação humana, vão virar verdadeiras máquinas supremas de transporte. Tais carros são construídos utilizando recursos estado da arte em inteligência artificial, muitos desses fortemente baseados em visão computacional.

Há uma nova corrida espacial para ver quem será a primeira empresa a lançar um carro autônomo comercial. Quem lançar primeiro fica com os benefícios de ser pioneira no mercado, de forma a associar-se para sempre com um produto muito importante para a história da humanidade. Diversas empresas estão nessa corrida, para citar algumas: Google, Tesla, Uber, Mercedes, GM, dentre outras. Não é só montadoras que têm interesse nesses carros. Já ouviu falar da Domino’s?

E basicamente o que todos esses cases têm em comum é que estão tirando proveito dos dados que já foram coletados sistematicamente e também aqueles captados por sensores em tempo real. Carros autônomos utilizam câmeras para se orientar na pista, dentre outros recursos. Nesse caso, os dados que alimentam o modelo de decisão são imagens.

Esse modelo precisa decidir se o carro precisa acelerar, frear ou mudar de direção, de acordo com dados obtidos pelas câmeras e sensores instalados no carro. E baseado em exemplos passados de como seria uma boa direção, o modelo é treinado para tomar decisões futuras de maneira autônoma.

Na medicina se utilizam imagens de diversos tipos de exames, em complemento aos dados clínicos de um paciente, para criar ferramentas poderosas de diagnóstico. Tais recursos fazem com que a taxa de falsos negativos e positivos, em geral, diminua. Isso significa que erros médicos diminuem também. Dessa forma, os benefícios vão muito além do benefício financeiro. Menos procedimentos invasivos são necessários quando há mais acurácia nos exames.

Além desses exemplos podemos citar também um muito frequente no nosso dia a dia: os sistemas de recomendações. Não há quem tenha feito uma compra online que não tenha sido exposto há algum sistema de recomendação.

Estatísticas mostram que grande parcela do faturamento dos e-commerce são provenientes das sugestões oferecidas por seus respectivos sistemas. Baseado no imenso histórico de compras combinado com informações sobre um cliente, uma loja pode facilmente fazer sugestões para você que facilmente tem performance superior em relação a sugestão de algo aleatório.

Não é como entrar em um mercado e ter que olhar todo o caderno de promoções e procurar pelos produtos que você tem mais interesse. Um sistema de recomendação já te joga na cara aquilo que ele entende que é mais provável que você queira. E acredite, todo mundo sai feliz nessa.

O lojista porque acaba faturando mais e você, pois não perde mais tempo olhando para produtos que não tem interesse. E de quebra, você ainda fica sabendo de mais produtos/serviços que você gosta ou gostaria eventualmente de vir a consumir.

E essa é parte da beleza desse mundo moderno, sistemas embarcados com inteligência artificial faz da nossa vida mais prática, e praticidade é sempre bem-vinda. Nos dar praticidade é a mesma coisa que nos dar tempo. Quem aí não gosta de ter mais tempo?

O que a Inteligência Artificial vai nos oferecer em um futuro próximo?

Ainda há muito do que se esperar da Inteligência Artificial. Elon Musk, com sua empresa Neuralink, planeja fazer a simbiose entre homem e máquina. Estamos falando sobre conectar dispositivos eletrônicos em nossa mente, com o objetivo de estabelecer uma conexão direta com nossos gadgets favoritos.

Pessoal, prestem atenção no que estamos falando aqui: a inteligência artificial vai nos dar o poder da telepatia.

Sim! Uma vez que nosso cérebro estiver conectado com o WhatsApp, por exemplo, poderemos enviar e receber mensagens mentalmente. Poderemos acessar nossa área de trabalho no computador, fazer anotações literalmente em tempo real e até videochamadas mentais.

Imaginem as implicações dessa tecnologia. Imaginem as aplicações no estudo sobre empatia entre seres humanos. Imaginem isso combinando com tecnologias de tradução instantânea. Imaginem.

Para citar outras aplicações fantásticas: a junção robótica com inteligência artificial. A partir de dados de ultrassom nas extremidades dos membros de pessoas amputadas, é possível reconhecer os sinais que o cérebro está enviando ali. As próteses robóticas interpretam a informação captada e realizam as ações conforme a instrução enviada direta do cérebro da pessoa. Na prática, essas pessoas vão poder usar suas próteses robóticas da mesma maneira que usavam seus ‘membros de nascença’.

Nos EUA, no The Dalí Museum em St. Petersburg, na Florida, trouxeram o grande artista Salvador Dalí de volta à vida. Através de um painel digital, e com a ajuda de um ator, colocaram o rosto do renomado artista no corpo do ator utilizando técnicas modernas de deep learning.

A China é o país que está vivendo mais intensamente a implantação de todas essas tecnologias em larga escala. Diversas notícias mostram o poder da visão computacional aplicadas nas câmeras de ruas chinesas. O monitoramento na China é muito poderoso. É possível detectar foragidos da polícia em meio a multidões. O regime político pelo qual se situa a China atualmente permite que o governo implemente ideias novas do campo da inteligência artificial sem muito debate ou consulta pública.

Isso em bastante antagonismo aos americanos e europeus, que estão mais propensos a aprovar leis contra o uso de reconhecimento facial pelo poder público.

A carreira para quem gosta de Inteligência Artificial

Essas são parte das maluquices que as pessoas andam construído baseado na análise intensa de dados. Por essa razão, carreiras relacionadas ao estudo e tratamento de dados, estão bombando em demanda. Uma das profissões que esse mundo moderno criou é o de Cientista de Dados, profissional responsável pela transformação de dados coletados em insights que direcione negócios no caminho da máxima eficiência.

Esse cara tá com a bola muita alta hoje em dia. Existem alguns salários passando até dos 20k mensais. E é apenas uma das carreiras que estão nascendo. Temos também o engenheiro de dados, o engenheiro de Machine Learning, o engenheiro de Inteligência Artificial, entre outras. Todas ramificações de carreiras relacionadas a coleta, armazenamento e processamento de dados.

Existem poucas graduações no Brasil específicas na área de Ciência de Dados. Os cursos mais próximos, como o de Estatística e de Ciências da Computação, são os que acabam formando esses soldados. Agora no primeiro semestre de 2020, duas graduações brasileiras levam o termo inteligência artificial no nome, uma oferecida pela UFG e outra pela UFPB.

Juntas, vão abrir 70 vagas. Nem perto de suprir a demanda do mercado por esses profissionais. Na verdade, provavelmente as universidades terão dificuldades em formar esse pessoal: serão absorvidos pelo mercado antes de se formarem.

Portanto, essa área boring chamada data science, ou ciência de dados, como preferir, é a área responsável pelos grande avanços dentro do campo da inteligência artificial. Estudar inteligência artificial hoje em dia é, em sua maior parte, estudar análise de dados. Começando lá nos modelos mais simples, como uma regressão linear, até modelos mais sofisticados e elaborados, como as redes neurais convolucionais, recorrentes e adversariais.

Esse campo de estudo pode ser visto como algo similar à uma engenharia. Num projeto, é necessário construir um fluxo de dados e informações que auxiliem ou até tomem uma decisão de maneira autônoma, criando assim sistemas com vida própria.

Já dizia o professor Andrew Ng, o que estamos vivendo é a era da análise de dados sob esteroides. Somos bebezinhos nisso tudo ainda. Começamos a coletar dados agora. Começamos a discutir o que fazer com dados agora. E começamos a ter resultados baseados em dados só agora.

E mesmo estando no começo dessa história, já podemos vislumbrar um horizonte de possibilidades fantástico, que se revelará a nós nos próximos anos. Imaginem contar sobre toda nossa tecnologia de agora para um ser humano há mais ou menos 200 anos atrás. Imagine falar que haveria comunicação instantânea mundial para alguém que sequer conhece eletricidade.

Seria fácil de compreender caso essa pessoa não acreditasse em nada do que você falasse. Agora se imagine na mesma posição que essa pessoa. Imagine sobre a tecnologia que teremos daqui a 200 anos. Imaginou?

Tenho certeza que você pensou em algo fantástico. Mas o que eu acho mesmo é que será muito mais fantástico do que qualquer um possa imaginar.

 

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Sobre o Autor

Ricardo Rocha
Ricardo Rocha

Olá! Atualmente, sou docente do magistério superior na Universidade Federal da Bahia. Atuo na área de Estatística Computacional junto ao Departamento de Estatística do Instituto de Matemática e Estatística da UFBA. Aqui na FLAI, atuo como colaborador na produção de conteúdos gratuitos. Fique a vontade para entrar em contato, você pode utilizar qualquer uma das redes sociais abaixo!

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